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A Secretaria do Meio Ambiente do Estado realizou
na quarta-feira (19/4) o terceiro módulo do curso “Gestão
Ambiental no Estado de São Paulo: Políticas, Planejamento
e Gerenciamento”, promovendo um debate sobre o tema “Gestão
Ambiental do Ar”. O evento, organizado pelo Departamento de Educação
Ambiental da Coordenadoria de Planejamento Estratégico e Educação
Ambiental - CPLEA, reuniu vários palestrantes, entre eles o secretário-executivo
do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais
e de Biodiversidade e do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas,
Fábio Feldmann.
Feldmann fez um breve histórico sobre a Conferência Rio 92,
mostrando como surgiu a discussão acerca de mudanças do
clima. "Foi por ocasião da Conferência de Estocolmo,
em 1972, reproduzida em 1992, que colocamos em pauta a dimensão
planetária dos problemas ambientais. Há 30 anos, quando
se falava de dimensão planetária era quase um elemento poético",
disse.
Em sua exposição, Feldmann ressaltou algumas iniciativas
relevantes como o surgimento das organizações não-governamentais,
"um ator importante no mundo", e do PNUMA - Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente, que instituiu o Dia Internacional da Camada
de Ozônio, para marcar a assinatura do Protocolo de Montreal, que
definiu a lista das substâncias que destróem a camada de
ozônio que protege a Terra dos raios ultravioletas. "O Protocolo
de Kyoto, por seu lado, visa combater o efeito estufa que, entre outras
conseqüências, promove o aquecimento global", explicou.
De acordo com Feldmann, faz-se necessário disseminar a discussão
em torno da questão das mudanças climáticas globais,
assim como desenvolver estratégias que poderão vir a ser
implementadas pelos países após 2012, quando se esgota a
primeira fase dos compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto, assinado
por 194 países e em vigor desde fevereiro de 2005. "Com o
início da segunda fase, os chamados países em desenvolvimento
terão de assumir responsabilidades quanto à emissão
de gases causadores do efeito estufa", concluiu.
O tema "Mudanças Climáticas e Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo” coube ao engenheiro João Wagner Alves, mestre em Energia
pela Universidade São Paulo - USP e gerente de Divisão de
Questões Globais da CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento
Ambiental, que abordou aspectos sobre o PROCLIMA - Programa Estadual de
Mudanças Climáticas criado pela Resolução
SMA 22/95, cuja maior atribuição consiste em dar à
sociedade informações sobre as mudanças climáticas
ocasionadas pela intensificação do efeito estufa.
"O efeito estufa é um fenômeno natural que mantém
a vida no planeta. No entanto, a sua intensificação em conseqüências
das atividades antrópicas desde a Revolução Industrial,
tem induzido ao aquecimento global," revelou.
Uma outra atribuição do programa foi a elaboração
dos 15 inventários nacionais de emissões de GEE - Gases
de Efeito Estufa, cabendo à CETESB a responsabilidade pela elaboração
do Inventário de Emissões de GEE por resíduos sólidos
e efluentes. Segundo a secretária-executiva do programa, Dione
Pradella, o Inventário de Emissões de GEE funciona como
um censo, quantificando as emissões de metano em suas fontes originárias.
Para Alves, a responsabilidade histórica dos países pela
emissão global foi norteada pelo princípio das responsabilidades
comuns, porém, diferenciadas no âmbito do Protocolo de Kyoto.
"Nessa oportunidade, criou-se um mecanismo de flexibilização
conhecido como MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que diz respeito
aos recursos internacionais oriundos de países desenvolvidos que
têm metas de redução a serem cumpridas até
2012”, salientou.
Esses recursos auxiliarão países em desenvolvimento como
o Brasil a atingir o seu desenvolvimento sustentável por meio de
projetos de MDL, cuja principal característica é a redução
de gases de efeito estufa ou de absorção de CO2 da atmosfera,
que são os projetos florestais de seqüestro de carbono.
No período da tarde , o professor José Goldemberg, secretário
estadual do Meio Ambiente, doutor em Ciências Físicas pela
USP, ocupante da "Cátedra Joaquim Nabuco" da Universidade
de Stanford - Estados Unidos, membro da Academia Internacional do Meio
Ambiente em Genebra, Suiça, e consultor do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, prestigiou o encontro com a palestra "Convenção
sobre mudança do clima".
Segundo explicou, a continuidade do MDL deveria ter seu horizonte estendido
para além de 2012, sugerindo o ano de 2015 e até mesmo 2020.
“A meta de redução das emissões de efeito estufa
deveria ser aumentada e, da mesma forma, os países grandes emissores,
como o Brasil, China e India, que ficaram desobrigados de cumprir metas
de redução, deveriam voluntariamente propor metas. "O
Protocolo de Kyoto estabeleceu que os países industrializados devem
reduzir, até 2012, suas emissões totais de GEE, em aproximadamente
5% abaixo dos níveis abaixo das emissões de 1990, no período
de compromisso de 2008 a 2012", revelou, lembrando que países
em desenvolvimento não têm metas de redução
nesse período.
Goldemberg lembrou que países como Canadá e Europa são
responsáveis por 25% do problema, cabendo à União
Européia 15% de emissões. "O CO2 não
é o único gás de efeito estufa, o metano e o dióxido
de nitrogênio contribuem bastante para o processo," disse.
Embora o Brasil não figurasse entre os grandes emissores na época
em que o Protocolo de Kyoto foi firmado, atualmente já se encontra
entre os seis maiores emissores do planeta, "principalmente em conseqüência
do desmatamento da Amazônia na ordem 25.000 km2, ao ano,
área correspondente a 10% do Estado de São Paulo, equivalente
ao tamanho do Estado de Sergipe", lamentou, alertando que o processo
de ressecamento do solo da floresta amazônica pode gerar sérias
conseqüências aos estados do nordeste.
O secretário reforçou a proposta de que o país deve,
voluntariamente, estabelecer metas de redução, até
para se qualificar para negociar em 2012, apresentando alternativas de
ações de âmbito nacional. Entre elas, ratificar o
Protocolo EUSS, reduzir desperdícios energéticos, modificar
padrões de consumo, importar biocombustíveis e aumentar
a eficiência energética, além de conter o desmatamento
e explorar outras energias renováveis. "A expectativa é
que esse tema seja priorizado nas discussões políticas desse
ano", finalizou.
"Poluição do Ar e Saúde Humana" foi o tema
desenvolvido pelo diretor da Faculdade de Medicina da USP e membro do
Comitê Environmental Protection Agency - EPA, de Harvard, Paulo
Hilário Nascimento Saldiva, que fez uma explanação
sobre as evidências relacionadas à poluição
do ar e saúde humana, a partir dos poluentes classificados como
material particulado (MP) e ozônio.
Lembrou que os habitantes de grandes centros urbanos, obrigatoriamente,
inalam partículas de poluentes presentes na atmosfera. "O
material particulado é uma mistura de partículas sólidas
ou líquidas suspensas no ar, que variam em forma, composição
e origem, cuja distribuição é caracterizada como
trimodal, com frações grossa, fina e ultrafina”, explicou.
Segundo Saldiva, nas cidades com alta densidade de tráfego, uma
fração significativa da fração grossa é
produzida pela fricção dos pneus dos veículos com
o asfalto das ruas, contendo elementos do pavimento e da borracha.
Já as partículas finas (MP2,5) são derivadas, de
maneira geral, a partir de processos de combustão de automotores,
indústrias ou usinas termoelétricas. As finas, por sua vez,
contém partículas primárias, produzidas diretamente
pelas fontes emissoras, bem como partículas secundárias
(sulfatos e nitratos), e partículas de carvão produzidos
pela combustão dos combustíveis fósseis, que possuem
diferentes compostos como metais pesados e hidrocarbonetos.
"Assumindo-se como reais os efeitos agudos associados à inalação
de MP, é esperado que ocorram efeitos crônicos resultantes
dessas múltiplas agressões. Na verdade, diversos estudos
têm relacionado a exposição continuada aos níveis
ambientais de MP com redução da expectativa de vida”,
alertou.
Quanto ao ozônio e outros oxidantes fotoquímicos, Saldiva
explicou que se trata de poluentes que não são emitidos
diretamente pelas fontes, mas que se formam a partir de uma série
de reações na atmosfera. "Essas reações
ocorrem sob a ação da energia transferida às substâncias
chamadas "precursoras", que absorvem fótons a partir
da reação solar.
Os precursores mais caracteristicamente associados à formação
de espécies oxidantes na atmosfera são o NO2
e compostos orgânicos voláteis, ambos precursores presentes
nas emissões geradas pela queima de de combustíveis",
esclareceu.
Outro palestrante foi o químico Jesuíno Romano, gerente
da Divisão de Tecnologia de Avaliação da Qualidade
do Ar, da CETESB, que falou sobre os vários aspectos da poluição
atmosférica relacionando poluentes como o monóxido de carbono,
material particulado, dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio,
compostos orgânicos voláteis e ozônio, associando-os
às suas características, explicando os motivos que levam
a agência ambiental a manter uma rede com 25 estações
automáticas na Região Metropolitana de São Paulo
e Cubatão e 6 no Interior, para monitorar a concentração
desses compostos, em todo o Estado.
Texto
Wanda Carrilho
Fotos
Zé Jorge
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