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O projeto “Inventário Florestal do
Estado de São Paulo”, realizado pelo Instituto Florestal,
órgão da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, foi o grande
vencedor do Prêmio von Martius de 2005, na categoria Natureza, em
que obteve o primeiro lugar. O trabalho aponta a expansão da cobertura
vegetal nas regiões do Litoral e de Sorocaba, e em menor proporção
também nas do Vale do Paraíba, Presidente Prudente, Ribeirão
Preto e na Capital. Outro dado relevante é a constatação
da eficácia dos programas de preservação e recuperação
implementados pelo Estado nos últimos anos.
O prêmio, entregue no último dia 29/11, na Câmara do
Comércio Brasil-Alemanha (instituição responsável
por sua realização), é resultado do único
concurso de projetos no Brasil e América Latina que adota procedimentos
independentes, com os projetos concorrentes auditados pela PriceWaterhouseCoopers.
A iniciativa conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e
do PNUMA/Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Seu nome é uma homenagem ao botânico alemão Karl Friedrich
von Martius que percorreu grande parte do território brasileiro
no século 19, entre os anos de 1817 e 1820, quando identificou
todos os ecossistemas do País, em trabalho conjunto com o zoólogo
Johans Baptist von Spix.
Essas pesquisas deram origem a obra “Flora Brasiliensis”,
com 40 volumes e cerca de 20 mil páginas, contendo 22.767 descrições
e 6.246 desenhos de plantas, resultado do maior trabalho de pesquisa da
flora brasileira já realizado até os dias de hoje.
O projeto desenvolvido pelo Instituto Florestal tem como base os levantamentos
comparativos da cobertura vegetal do Estado entre o período de
1990/1992 e 2000/2002. Um dos resultados mais expressivos do levantamento
é a indicação do aumento de 127 mil hectares de vegetação
natural remanescente, nos 10 anos avaliados, confirmando os efeitos positivos
de políticas públicas para a preservação em
algumas regiões e, em outras, indicando a necessidade de implementação
de projetos de recuperação dos diferentes sistemas encontrados
no território paulista.
Metodologia e resultados
O trabalho realizado pelo Instituto Florestal, que integra o Programa
BIOTA, da FAPESP, é resultado de uma seqüência de atividades
que tem como objetivo o mapeamento e a avaliação dos remanescentes
da vegetação, para fins de estudos e controle da dinâmica
de suas alterações. Dando continuidade a uma série
histórica iniciada em 1962, o levantamento toma como base as Regiões
Político-administrativas, mas usa também as Unidades de
Gerenciamento de Recursos Hídricos, uma divisão espacial
mais recente.
Entre as metodologias adotadas, a utilização de legendas
para as diferentes categorias de vegetação engloba a classificação
regional (matas, capoeira, cerrado, restinga) e é complementada
pela legenda de caráter mais universal, que permite uma classificação
mais específica do tipo de vegetação encontrada (florestas
ombrófilas, savanas florestadas , formação arbórea).
O avanço da tecnologia aplicada, com processamento digital de imagens,
associado a informações geográficas de banco de dados
convencionais, resultou também em um diagnóstico mais preciso,
levando à constatação da existência de um número
maior de áreas com determinados tipos de vegetação
- caso da vegetação de várzea, mangue e restinga,
mais difíceis de serem visualizadas - ao mesmo tempo que confirmou
o declínio acentuado de outras espécies.
O projeto exigiu também um minucioso trabalho de cruzamento dos
dados, obtidos através das imagens do satélite e das fotografias
aéreas que fazem parte do acervo do IF, reunidos ao longo dos anos.
Para elaborar o inventário foram formadas equipes com pesquisadores
científicos de áreas como a Divisão de Dasonomia,
Divisão de Florestas e Estações Experimentais, Serviços
de Comunicações Técnico-Científicas, além
de colaboradores da Esalq e Unicamp, que se somaram aos pesquisadores
da área de Manejo e Inventário Florestal do Instituto Florestal,
coordenados por Francisco Kronka.
Entre os resultados obtidos, duas situações merecem destaque:
o aumento da cobertura vegetal, particularmente nos sistemas presentes
nas regiões do Litoral e Sorocaba, mas também na região
do Vale do Paraíba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto
e no município de São Paulo, totalizando 3.457.000 hectares,
contra os 3.330.000 hectares registrados no levantamento de 1990/92 -
e a constatação da eficácia de alguns programas de
preservação e recuperação que o Estado de
São Paulo vem desenvolvendo nos últimos anos.
Embora ainda não disponha de dados para avaliar as razões
desse crescimento, Marco Nalon, atual responsável pela sessão
de Manejo e Inventário Florestal do Instituto Florestal e um dos
pesquisadores científicos a participar do projeto, atribui o aumento
constatado principalmente na Serra do Mar, a programas como o Projeto
de Preservação da Mata Atlântica/PPMA, desenvolvido
pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, em parceria com o governo alemão
(através do KFW). Outro fator que deve ter contribuído para
esse resultado positivo é intensificação das ações
da Polícia Ambiental na região.
Para a situação inversa, constatada em municípios
como Araçatuba, São José dos Rio Preto, Marília,
Bauru e Campinas, a explicação é clara. A redução
dos remanescentes de vegetação natural é provocada
pela expansão das fronteiras agrícolas nas regiões
que possuem geografia favorável à atividades agropecuárias
e solos considerados ricos e propícios à agricultura.
Com base nessa avaliação foi possível, por exemplo,
constatar a drástica redução de cerrado nos últimos
40 anos, período em que 1.625.000 hectares desta vegetação
(85,5%) desapareceram ou foram paulatinamente substituídas por
atividades agrícolas. Outra constatação traz uma
boa notícia: São Paulo, que já ocupava o primeiro
lugar entre os estados que mantém remanescentes da mata atlântica
contínua, conseguiu recuperar mais de 200 mil hectares desta vegetação
específica, principalmente na região litorânea, nos
últimos dez anos.
Aplicação prática
Os resultados dos levantamentos efetuados são
apresentados para cada uma das 22 bacias hidrográficas que compõem
o Sistema Estadual de Recursos Hídricos, levando em conta a sua
utilização como base para o planejamento de recursos hídricos.
O levantamento de dados serve também para a elaboração
de planos de manejo em diferentes unidades de conservação,
contribuindo para o uso sustentável dos ecossistemas abrangidos.
Um exemplo de aplicação prática do inventário
é o Projeto de Recuperação de Matas Ciliares do Estado
de São Paulo, lançado este ano e que selecionou 15 projetos
em cinco bacias hidrográficas, para promover a revegetação
em uma área de 1.500 hectares, usando como um dos instrumentos
para definir as áreas prioritárias a base os dados fornecida
pelo levantamento do IF. O objetivo do projeto é reverter o quadro
de degradação de um milhão de hectares, ao longo
de 120 mil quilômetros de margens de rios, lagos, nascentes e reservatórios,
nos próximos quatro anos.
Além de ter como objetivo a redução dos processos
de erosão do solo e assoreamento dos corpos d’água,
propiciando a melhoria da qualidade e quantidade da água, o projeto
prevê a redução da perda de solo e o apoio ao uso
sustentável dos recursos naturais.
Para dar continuidade ao inventário, o Instituto Florestal já
está executando um novo monitoramento de vegetação
natural remanescente, tendo como base as imagens recentes, captadas pelo
satélite China-Brasil entre 2004 e 2005. Desta vez, a atualização
será por região e o primeiro levantamento a ser concluído
ainda este ano é o da Mata Atlântica Litorânea.
Outro procedimento que vem sendo introduzido é a pesquisa de campo,
como forma de aferir os resultados obtidos a partir das imagens aéreas
e avaliar o nível de acerto na delimitação das áreas
e na classificação da cobertura presente em cada região
analisada.
Texto
Eli Serenza
Fotos
arquivos do Instituto Florestal |
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