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O professor José Goldemberg, secretário
do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, encontra-se em Montreal,
no Canadá, participando da COP 11 - Conferência das Partes
da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Mudanças do Clima. Um dos principais artífices das propostas
brasileiras no encontro de Johannesburgo, na África do Sul, e dos
encontros posteriores organizados pela ONU, como o de Buenos Aires, na
Argentina, Goldemberg é uma das principais fontes fazendo, inclusive,
parte do quadro de consultores do BID.
Nesta entrevista, o secretário do Meio Ambiente paulista fala de
suas expectativas em relação à reunião de
Montreal e ao prosseguimento dos acordos firmados no Protocolo de Kyoto,
lembrando principalmente que é neste ano que se definirão
as bases para a segunda fase desse acordo, a vigorar a partir de 2012.
Qual a sua expectativa em relação
à COP 11 - Conferências das Partes da Convenção
Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima?
As expectativas em relação à
COP 11, em Montreal, são melhores do que as expectativas em relação
à última conferência que se realizou em Buenos Aires,
pela seguinte razão: o Protocolo de Kyoto foi finalmente ratificado
por um número suficiente de nações para entrar em
vigor em fevereiro deste ano. Então, essa é a primeira reunião
da conferência das partes que se reúne com o Protocolo de
Kyoto em vigor. Tanto que não é só a COP 11, quer
dizer, a Conferência das Partes da Convenção do Clima
n.°11, como é a MOP 1 - Meating of the Parts, que é
a reunião dos signatários de Kyoto.
E um dos itens que terá de ser discutido na conferência de
Montreal, como está previsto no Protocolo de Kyoto, é a
discussão do segundo período de compromisso a partir de
2012, levando em conta que o acordo levou oito anos para entrar em vigor,
restando apenas sete anos para sua vigência. É, portanto,
indispensável que haja um novo protocolo a partir de 2012, sendo
necessário fazer um esforço muito grande para incluir os
Estados Unidos e a Austrália, que não aderiram ao Protocolo
de Kyoto, e os países em desenvolvimento que são os grandes
emissores de hoje, que são a China, a Índia, e também
o Brasil, por causa do desmatamento. Ou seja, abre-se um novo jogo com
a reunião de Montreal.
Qual a principal mensagem brasileira na
COP 11?
A principal mensagem brasileira na COP 11 não está definida
de maneira muito clara, apesar do Itamaraty ter realizado várias
reuniões para tentar fixar a nossa posição. O que
transpirou desses encontros é que o Brasil mudou de posição
em relação às florestas e apoiará propostas
para dar créditos ao desmatamento evitado. Na realidade, o Brasil
tem se recusado sistematicamente, até agora, a discutir o problema
das florestas sob qualquer uma das suas formas e não, portanto,
limitações nas emissões decorrentes da queima de
florestas e nem o desmatamento evitado, que era uma proposta já
discutida e aprovada no encontro de Costa Rica.
Desta vez, há novas propostas nesse sentido. A idéia básica
é de que os países, não só Brasil, como também
a Indonésia, mais o Congo e outros países africanos, que
reduzissem o desmatamento, seriam compensados de alguma forma. Ou seja,
evitar o desmatamento seria compensado pela convenção. Falta
esclarecer como se daria tal compensação. A primeira idéia,
de conceder créditos para os desmatamentos evitados, nunca foi
bem explicada. A proposta brasileira é de que seja dado crédito
fora do MDL, fora do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, o que vai ter
que ser discutido em Montreal.
É possível fazer isso, e o Estado de São Paulo dá
um bom exemplo disso com o projeto de recuperação de matas
ciliares, que, além de proteger os corpos d'água, capturam
o carbono da atmosfera. E o Estado é recompensado por essas ações
por meio de uma doação do Banco Mundial que, através
do GEF - Global Environmental Facilities, liberou quase US$ 8 milhões
para o projeto. Ou seja, uma agência internacional, que não
nos dá um crédito na área de carbono, nos dá
um crédito para uma ação promove a redução
das emissões. Eu acho que o exemplo das matas ciliares do Estado
de São Paulo constitui um indicador do que vai acontecer com a
proposta brasileira em Montreal.
Os países em desenvolvimento vão
ter uma posição única?
Eles vão aceitar reduzir as emissões e, assim,
ao mesmo tempo, desacelerar o desenvolvimento econômico?
Os países em desenvolvimento não vão
aceitar reduzir as emissões com a preocupação de
que isso possa levar à desaceleração do desenvolvimento
econômico. É um pouco cedo para discutirmos isso, apesar
de eu considerar inquietante o que está acontecendo com a China,
que é o segundo emissor mundial logo abaixo dos Estados Unidos
que emitem 25% das emissões mundiais. As emissões chinesas,
que são 17% do total mundial, estão crescendo muito mais
rapidamente do que as dos Estados Unidos, e se alguma providência
não for tomada logo será o primeiro emissor mundial.
Em algum momento, o acordo vai ter que ser estabelecido envolvendo a China
e os países em desenvolvimento, entre os quais se inclui o Brasil,
além dos Estados Unidos e a Austrália que se mantiveram
fora do Protocolo de Kyoto.
Esse acordo não será atingido em Montreal. O que se espera
em Montreal é que seja cumprida uma cláusula, que consta
no Protocolo de Kyoto, de que haverá negociações
por um novo período de compromissos, dentro ou fora do Protocolo
de Kyoto que vai até 2012.
Há pouco tempo para cumprir as metas do protocolo e, portanto,
é a hora de discutir como será o segundo período,
e eu acho que essa discussão poderia ser feita nos próximos
dois anos. Fui informado de que algumas delegações acham
que é inútil discutir isso enquanto não mudar o governo
americano dentro de três anos. Eu acho que essa visão é
incorreta: o segundo período de compromisso deve ser discutido
em dois anos. Foi o que aconteceu em Berlim, em 1995, quando foi adotado
o Mandato de Berlim, de que as partes negociassem um protocolo de redução
de emissões. Foi o o que ocorreu, dois anos depois, em Kyoto.
Não sabemos ainda o cenário da política
norte-america, pois as eleições ainda estão distantes.....
Exatamente, não sabemos ainda como vai se
encaminhar a política dos Estados Unidos. Eu acho que não
é possível que uma questão internacional não
pode ficar na dependência das eleições internas de
um país, por mais importante que esse país seja.
A idéia de que reduzir as emissões desacelera o desenvolvimento
econômico é incorreta e, provavelmente, um dos eventos paralelos
importantes que vai ocorrer em Montreal é o evento que está
sendo programado para o dia 5 de dezembro, no qual o Estado da Califórnia
e o Estado de São Paulo vão assinar um protocolo de intenções
e mostrar aos demais países o que nós estamos fazendo para
reduzir as emissões.
A Califórnia, que o é o Estado mais desenvolvido dos Estados
Unidos, e São Paulo, que ocupa a mesma posição no
Brasil, estão crescendo economicamente e estão reduzindo
as suas emissões de carbono, tanto per capita como por unidade
de GDP - Gross Domestic Product, o Produto Interno Bruto. As razões
não são as mesmas porque as estruturas industriais dos dois
Estados são diferentes, mas essa redução está
ocorrendo. O Estado de São Paulo está reduzindo as suas
emissões por utilizar o álcool combustível em quantidades
crescentes e há a recuperação da cobertura florestal,
que ajuda também promovendo a absorção de carbono.
Na Califórnia, são medidas de conservação
de energia.
Haverá um evento paralelo em que os secretários do Meio
Ambiente da Califórnia e de São Paulo relatarão as
experiências e mostrarão que não há nenhuma
razão para temer que as reduções das emissões
de carbono promova a desaceleração do desenvolvimento econômico.
As catástrofes recentes, como o tsunami na
Ásia e os furacões nos Estados Unidos, têm a ver com
o aquecimento do planeta e as mudanças climáticas? E isso,
de alguma forma, vai influir nas decisões futuras dos países
signatários do Protocolo de Kyoto?
Essas catástrofes, seguramente, vão
influir nas decisões futuras dos países signatários.
Apesar de não haver uma evidência científica clara
de que as emissões de carbono são as causas do tsunami e
dos furacões. Não há a menor dúvida de que
a freqüência cada vez maior de eventos extremos que temos presenciado
está ligado às mudanças climáticas e, com
os estudos científicos estão se aperfeiçoando nessa
área, o que se espera é logo se consiga mostrar a relação
clara entre os fenômenos em questão.
Mas, mesmo sem certeza científica, é evidente que alguma
coisa está acontecendo. O fato de que o nível do mar está
subindo dois milímetros por ano, ao passo que há cem anos
subia um milímetro, é uma evidência absolutamente
meridiana de que está acontecendo o aquecimento global e que, portanto,
está em tempo ainda de tomarmos as medidas para evitar esses problemas.
Isso muda o posicionamento dos países?
Eu creio que não muda a curto prazo, mas
eu acho que vai forçar os países a assumirem uma atitude
mais construtiva em relação à adoção
de metas ou outras medidas que, na prática, sejam equivalentes.
A ocorrência dos furações foi
uma experiência traumática para os Estados Unidos...
Exatamente. Eu acredito que há muito mais
pessoas nos Estados Unidos fazendo comparações dos custos
da recuperação dos estragos decorrentes dos furacões
com os de medidas para reduzir as emissões de carbono. É
claro que as indústrias do petróleo e do carvão se
oporão, bem como a Arábia Saudita, mas há outros
atores no mundo além desses países e desses setores.
Algo mais?
Uma última coisa: o resultado menor, que
não vai implicar grandes mudanças estruturais na convenção,
mas que espero que ocorra em Montreal será a simplificação
dos procedimentos para a aprovação de projetos de Mecanismos
de Desenvolvimento Limpo. Existem queixas generalizadas do setor privado
de que a aprovação de projetos tornou-se muita burocrática
e, além de demorar, o processo tem um custo muito elevado.
Eu acredito que serão tomadas medidas medidas concretas, o que
não exigirá modificações na convenção
ou no Protocolo de Kyoto. São medidas administrativas que dinamizarão
o secretariado da convenção, que é o órgão
responsável pela aprovação dos projetos de Mecanismos
de Desenvolvimento Limpo e que fica sediado em Bonn, na Alemanha. |
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