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São Paulo pode dar uma grande contribuição
para ajudar nas ações visando a mitigação
dos efeitos das mudanças climáticas globais, disse hoje
o governador Geraldo Alckmin, lembrando que o “estado é o
maior produtor mundial de álcool combustível, que é
uma fonte de energia renovável, e 54% da frota já é
“flexfuel” (bicombustível)”. Ele também
recordou que recentemente o Governo paulista obteve, em Washington, do
Banco Mundial, a quantia de US$ 7,7 milhões, a fundo perdido, que
permitirá o plantio de 1 milhão de hectares de matas ciliares
em todo o estado.
As declarações do governador foram dadas durante o primeiro
dia de realização do seminário internacional “Equidade
no Período Pós-Quioto”, na Escola de Administração
de Empresas Fundação Getúlio Vargas (FGV), promovido
pelo Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais
e de Biodiversidade, em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade
da FGV e a organização inglesa Action for a Global Climate
Community.
Além do governador Alckmin, estiveram presentes à abertura
do evento, entre outras autoridades e especialistas do assunto, a ministra
do Meio Ambiente, Marina Silva, o secretário do Meio Ambiente do
Estado de São Paulo, prof. José Goldemberg, o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, o coordenador geral de Mudanças Climáticas
do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), José
Domingos Gonzales Miguez, o secretário do Verde do Município
de São Paulo, Eduardo Jorge, e o prof.
Luiz Gylvan Meira Filho, do Instituto de Estudos Avançados da USP,
além do secretário executivo do Fórum Paulista de
Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade, Fábio
Feldmann.
O seminário internacional, que termina nesta quarta-feira (27/07),
tem programadas para amanhã - com os painéis abertos ao
público - , as participações, entre outras, de Peter
Luff, diretor da Action for a Global Climate Community, de Rubens Mazon,
coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, Aubrey Meyer,
diretor do Global Commons Institute, Luiz Pinguelli Rosa, secretário
executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
e Walter Vergara, engenheiro chefe de Meio Ambiente do Banco Mundial.
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
De acordo com Fábio Feldmann, além
do objetivo básico do Fórum Paulista, de disseminar ao público
em geral a discussão envolvendo a questão das mudanças
climáticas globais, este seminário visa também a
discussão de estratégias que poderão vir a ser implementadas
pelos países após 2012, quando se esgota a primeira fase
dos compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto, assinado por 194 países
e em vigor desde fevereiro último. Com o início da segunda
fase, os chamados países em desenvolvimento terão que assumir
responsabilidades quanto à emissão de gases causadores do
efeito estufa.
Para a ministra Marina Silva, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL),
previsto no Protocolo e que possibilita a geração de recursos
a partir de créditos de carbono, embora ainda em fase inicial,
representa uma iniciativa inovadora e deve ser potencializado para tornar-se
um instrumento eficaz no futuro, no que se relaciona ao combate às
mudanças climáticas, lembrando que 30% dos projetos de MDL
são brasileiros. Por outro lado, ela ressaltou as preocupações
com a Amazônia, com base nos estudos que dão conta da grande
responsabilidade do desmatamento na emissão de gases de efeito
estufa.
Já para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, após
salientar que o Brasil não pode se eximir de responsabilidades
no que se refere às mudanças climáticas globais,
reiterou que o país deve reforçar suas posições,
recordando que várias medidas concretas foram implementadas, como
a criação em São Paulo de um fundo específico
na Bolsa de Mercadorias. Quanto ao futuro do Protocolo, o pós-Kyoto,
ele mostrou preocupação no sentido de que sejam cumpridos
os compromissos assumidos pelo tratado produzido na cidade japonesa, antes
de se discutir em demasia os próximos passos. Nesse sentido, ele
sugeriu a criação de indicadores, para se acompanhar a evolução
das medidas implementadas, dando como exemplo o Índice de Desenvolvimento
Humano - IDH.
De acordo com José Miguez, do MCT, as propostas brasileiras são
basicamente as formuladas em 1997 e permanecem, destacando que a criação
do MDL foi consolidada, com sua inclusão no Protocolo. Por sua
vez, Peter Luff é de opinião que um novo grupo, formado
pelos países do Norte e do Sul, incluindo o Brasil e a Índia,
devem se comprometer no sentido de estabelecer uma meta concreta para
os créditos de carbono. Para Paulo Moutinho, do Observatório
do Clima, há necessidade de um salto e um ponto importante seria
a discussão específica das “emissões avantajadas
do desmatamento”.
Alertando para o fato de que “as mudanças climáticas,
infelizmente, não são modismo”, o prof. Enéas
Salatti, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”,
de Piracicaba, informou que no planalto paulista, já se registra
um aumento de temperatura em torno de 0,7 graus celsius, enquanto que
a elevação média no planeta é por volta de
0,6 graus, explicitando ainda sua preocupação, “a
curto prazo, quanto à perda de água por evacoevaporação,
que resultará em prejuízos significativos para o abastecimento
público.”
Situação bastante complexa
No período da tarde deste primeiro dia do seminário, em
sua apresentação, o professor José Goldemberg comentou
algumas implicações dos diferentes modelos que estão
sendo formulados para pós-Kyoto (pós 2012), afirmando que
o estabelecimento de parâmetros é bastante complexo: "Estamos
discutindo aqui quem vai reduzir as emissões? Os Estados Unidos
emitem cerca de 25% e a China, da ordem de 15%".
Goldemberg disse mesmo que o Protocolo de Kyoto não constituiu
uma conquista. "A conferência de Berlim adotou um mandato que
resultou no Protocolo de Kyoto; em contrapartida, as resoluções
tomadas pela União Européia ultrapassaram os compromissos
estabelecidos", afirmou.
Segundo o secretário estadual do Meio Ambiente, a proposta brasileira
é eminentemente razoável, na medida que está preocupada
com o que vai acontecer com a temperatura e com o acréscimo do
nível do mar.
Entretanto, reconhece claramente que um grave problema brasileiro a ser
enfrentado é o desmatamento da Amazônia. "É preciso
tomar uma providência no interesse do povo brasileiro", disse.
O enquadramento global de políticas climáticas com base
científica proposto às Nações Unidas a partir
de 1990 pelo Global Commons Institute, intitulado "Contração
e Convergência" (C&C), cuja base de cálculo formal
é proporcionada pelo objetivo das concentrações dos
gases de efeito estufa seguras e estáveis na atmosfera, assim como
pelos princípios da precaução e da equidade, conforme
já acordado na "United Nations Framework Convention of Climate
Change" (UNFCCC), foi o tema abordado por Peter Luff, diretor da
Action for a Global Climate Community.
Luff ressaltou que até o momento, as emissões de CFCs têm
estado intimamente relacionadas ao desempenho econômico, atribuindo
o crescimento das economias e das emissões aos países industrializados,
os quais propuseram recentemente um padrão global maior de expansão
e divergência - E&D - não econômico, de desequilíbrio
ambiental e insegurança internacional.
"A resposta C&C a esta situação é a longo
prazo e constitucional e não a curto prazo. A C&C permite uma
distribuição internacional prévia destes créditos
futuros negociáveis e, por conseguinte, valiosos para a emissão
de CFCs, de forma a resultarem numa taxa de convergência que é
deliberadamente acelerada em comparação com a taxa global
de contratação acordada", concluiu.
Texto:
Mário
Senaga e Wanda Carrilho
Fotos:
Zé Jorge e Pedro Calado
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