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Ao fazer a apresentação do Relatório
de Águas Interiores no Estado de São Paulo, na manhã
desta quarta-feira (23/03), um dia após a data que comemora o Dia
Internacional da Água, o presidente da CETESB - Companhia de Saneamento
Ambiental, Rubens Lara comentou alguns resultados positivos obtidos, como
a constatação da melhoria da qualidade da água bruta
nos 61 pontos de captação para o abastecimento público,
que subiu 17% em relação ao ano de 2003 e a ampliação
da porcentagem de municípios com tratamento de esgoto, que passou
de 37% para 39% no mesmo período. Rubens Lara, no entanto, explicou
que se esses dados são resultado dos investimentos públicos
em saneamento, ainda há muito a ser feito, o que incluiu a conscientização
da população em relação ao uso da água.
Ele usou como referência a recomendação da ONU - Organização
das Nações Unidas, para consumo per capita/dia, limitado
em 120 litros e comparou com o gasto diário registrado na cidade
de Santos, que é de 180 litros/dia. A diferença segundo
o presidente da CETESB implica no desperdício de 9 bilhões
de litros por ano, só naquele município litorâneo.
Para Eduardo Mazollenis, gerente da equipe responsável por sua
elaboração, também merece destaque o acerto da política
de gestão dos recursos hídricos, através dos conselhos
de bacia, que se reflete nos resultados positivos apresentados pelo estudo.
Ele lembra também que, embora os esgotos sejam a principal fonte
poluidora das águas, outras fontes vem aumentando sua contribuição
começam a despontar, como é o caso do uso do solo nas regiões
onde predomina a atividade agropecuária ou da operação
dos reservatórios, que controlam a vazão nos corpos d'água
utilizados para abastecimento, podendo afetar a capacidade de recuperação
das águas.
O relatório que a CETESB disponibiliza a partir de hoje foi elaborado
com base na análise dos dados coletados pela Rede de Monitoramento,
que conta com 316 estações manuais e 14 estações
automáticas, além de 61 pontos de captação
de água bruta para abastecimento público, que acaba de completar
30 anos. A rede foi iniciada com 46 pontos de amostragem, ampliados ao
longo do tempo, até chegar ao formato atual, que permite inclusive
a captação de informações on lina nos casos
da Bacia do Alto e Médio Tietê, reunindo informações
que possibilitam o acompanhamento e a evolução das condições
dos principais rios e reservatórios situados nas 22 Unidades de
Gerenciamento de Recursos Hídricos (UGRHIs) do Estado de São
Paulo.
Disponível para , o relatório de cerca de 300 páginas
indica os percentuais de coleta e tratamento de esgotos domésticos,
dados sobre cargas orgânicas, assim como dos acidentes ambientais
e a situação dos corpos d'água receptores desses
lançamentos em cada um dos 645 municípios paulistas. Publicado
desde 1978, os relatórios de qualidade das águas interiores
subsidiam as ações de controle da poluição,
os comitês de bacia e os setores das administrações
municipais, estadual e federal que atuam na recuperação
da qualidade das águas dos rios e reservatórios existentes
no território paulista.
Situação atual
O relatório mostra crescimento significativo
do número de cidades com coleta e tratamento de esgoto, que em
2004 atingiu 39% dos 645 municípios paulistas, enquanto em 2003
este número era de 37% e em 2002 envolvia apenas 30% das cidades
em todo o Estado de São Paulo.
Em relação às bacias, temos 38% de esgoto tratado
na Bacia do Alto Tietê e 59% na Baixada Santista, percentuais bastante
significativos quando consideradas as altas taxas populacionais e de industrialização
nessas regiões. Outras áreas apresentam porcentagens mais
elevadas, mas um índice de densidade populacional e de atividade
industrial mais reduzido. São os casos da Bacia do Sapucaí-Grande,
situada na divisa com Minas Gerais, com índice de 60% de esgotos
tratados, ou São José do Dourados (98%), Médio Paranapanema
(62%) e Aguapeí (80%), localizados em regiões onde predominam
a agropecuária e com baixa densidade populacional.
Entre os dados que também merecem destaque está a melhoria
da qualidade das águas nos 61 pontos de captação
para o abastecimento público, com índice 17% superior ao
constatado em 2003. Este dado torna-se ainda mais expressivo quando se
sabe que 70% dos pontos que apresentaram melhoria abastecem as regiões
da Grande São Paulo e Campinas, que reúnem mais da metade
da população do Estado (cerca de 20 milhões de habitantes).
Embora o esgoto doméstico se constitua, atualmente, na maior fonte
de poluição das águas, é surpreendente também
a contaminação provocada por acidentes ambientais com produtos
químicos envolvendo os recursos hídricos. Nesses casos,
o maior destaque é o transporte rodoviário, responsável
por 32% desse tipo de contaminação, seguido pelos postos
de revenda de combustíveis (10%) e transporte por duto (7%).
Situação das bacias
Com base na Lei Estadual nº 7.663, de dezembro
de 1991, que instituiu a Política Estadual de Recursos Hídricos,
o Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos e dividiu
o Estado de São Paulo em 22 Unidades de Gerenciamento de Recursos
Hídricos (UGRHIs), as bacias também seguem as seguintes
classificações:
Bacias em área de Conservação - Mantiqueira, Litoral
Norte, Ribeira do Iguape/Litoral Sul e Alto Paranapanema. Bacias em área
onde predomina a Agropecuária - Turvo/Grande, Tietê/Batalha,
Médio Paranapanema, São José dos Dourados, Baixo
Tietê, Aguapeí, Peixe e Pontal do Paranapanema. Bacias em
região em Processo de Industrialização - Pardo, Sapucaí/Grande,
Mogi-Guaçu, Baixo Pardo/Grande e Tietê/Jacaré. Bacias
em região Industrial - Paraíba do Sul, Piracicaba/Capivari/Jundiaí,
Alto Tietê, Baixada Santista e Sorocaba/Médio Tietê.
Na Bacia da Mantiqueira, que inclui a cidade de Campos de Jordão,
o esgoto doméstico já afeta a qualidade das águas,
mas existe previsão para a implantação de uma estação
de tratamento a partir de 2008.
No caso da Bacia do Paraíba do Sul, onde estão localizadas
cidades como São José dos Campos, Taubaté, Jacareí
e Aparecida, a elevada densidade populacional e o nível insuficiente
do tratamento dos esgotos têm se refletido na redução
dos níveis de oxigênio dissolvido e na má qualidade
da água em vários trechos do rio.
Na Bacia do Litoral Norte, o tratamento de esgoto, com percentual de 31%,
já é significativo, se comparado à densidade populacional,
, mas apresenta problemas pontuais, como na Praia da Baleia, em São
Sebastião, e nas águas do Rio Grande, em Ubatuba.
Na Bacia do Pardo, já é possível constatar a melhoria
da qualidade das águas, com o aumento do nível do oxigênio
dissolvido. Isso é reflexo do tratamento dos esgotos domésticos
na região de Ribeirão Preto, embora o trecho inicial do
rio, na divisa com Minas Gerais, tenha apresentado declínio na
qualidade, em relação ao ano anterior.
A Bacia do Capivari sofre com a contribuição da carga orgânica
do Município de Campinas, enquanto a Bacia do Jundiaí apresenta
uma piora acentuada na qualidade das águas. A CETESB vem recomendando
o desenvolvimento de projeto específico para o gerenciamento das
cargas poluidoras lançadas na bacia.
Na Bacia do Piracicaba, formada pelos rios Atibaia, Jaguari, Piracicaba
e contribuintes, as fontes industriais potenciais são monitoradas
sistematicamente, mas existem contribuições significativas
dos ribeirões Lavapés, em Bragança Paulista, Tatu,
em Limeira, e Quilombo, na mesma região, que misturam carga orgânica,
proveniente dos esgotos domésticos, e química, decorrente
das empresas de bijuterias.
No caso da Bacia do Alto Tietê-Cabeceiras, as ações
da CETESB tiveram como resultado a transferência de algumas indústrias
químicas para outras regiões, a mudança nos processos
produtivos ou o encerramento das atividades nas quais não foi possível
o controle dos efluentes. Algumas empresas passam por estudo de contaminação
do solo para verificar a existência de passivo ambiental.
Na Região Metropolitana de São Paulo, os investimentos já
realizados na captação e tratamento de esgoto ainda não
se refletem na qualidade das águas do Tietê, Tamanduateí
e Pinheiros, que atravessam as áreas mais populosas e industrializadas
do Estado.
A qualidade das águas que compõem a Bacia da Baixada Santista
indica a necessidade de monitoramento de comunidades fitoplanctônicas,
pois existe a possibilidade da presença de algas potencialmente
tóxicas; além da investigação das fontes responsáveis
pelos elevados teores de nitrogênio e fósforo, identificados
nos rios Moji e Piaçagüera.
No caso da Bacia do Sapucaí-Grande, a redução
dos teores de cromo para níveis aceitáveis indica a eficácia
da ação de controle junto aos curtumes e atividades de recurtimento.
Os baixos valores de oxigênio dissolvido observados no trecho crítico
do Rio Mogi-Guaçu indicam a necessidade de se manter vazões
mínimas, a jusante da barragem
da AES-Tietê.
A eutrofisação é um dos principais problemas constatados
no Reservatório de Barra Bonita, na Bacia do Sorocaba/Médio
Tietê, com o crescimento acelerado de algas provocado pelo excesso
de nutrientes, com contribuição expressiva da Região
Metropolitana de São Paulo, do Alto Tietê e do Jundiaí-Capivari-Piracicaba.
Na Bacia do Ribeira do Iguape-Litoral Sul, os elevados teores de fósforo
total indicam a necessidade de investigação aprofundada
nas mineradoras existentes na região; enquanto que na Bacia do
Baixo Pardo-Grande a investigação deve ser voltada para
as causas da toxicidade nos organismos aquáticos, embora esse trecho
apresente boa qualidade sanitária.
No caso da Bacia do Tietê-Jacaré, a CETESB recomenda que
se priorize o tratamento dos esgotos domésticos gerados nas sub-bacias
do Jacaré-Guaçu, Jacaré-Pepira e Lençóis,
assim como a implementação de programas de conservação
do solo e reconstituição de mata ciliar.
No Alto Paranapanema, as águas do Reservatório Jurumirim
apresentam qualidade boa, embora seus tributários possuam carga
expressiva de nutrientes. Isso indica a necessidade de priorizar o tratamento
de esgotos, inclusive nos seus formadores - Paranapanema e Taquari -,
para garantir a manutenção da qualidade apresentada.
A Bacia do Turvo-Grande sofre com o lançamento dos efluentes domésticos
sem tratamento de municípios como Catanduva, com 106 mil habitantes,
e São José do Rio Preto, com 358 mil.
Na Bacia do Tietê-Batalha, a necessidade é de implementação
de programas de conservação do solo e reconstituição
de mata ciliar, enquanto o Médio Paranapanema, que possui vários
reservatórios ao longo de seu percurso, já indica a premência
de tratamento dos esgotos domésticos para manutenção
de baixos níveis de fósforo para evitar o processo de eutrofisação
de suas águas.
A bacia com maior percentual de coleta e tratamento de esgoto é
a de São José dos Dourados, cujos corpos d’água
apresentaram boas condições sanitárias e ambientais
em 2004, com tendência a ser mantida.
No Baixo Tietê, o manancial do Baguaçu acusou comprometimento
dos níveis de oxigênio dissolvido, principalmente no período
de chuvas, o que exige atenção especial no processo de tratamento
de água bruta e medidas de proteção dos mananciais
da região.
Na Bacia do Aguapeí, embora 80% do esgoto seja tratado, o lançamento
de efluentes domésticos "in natura" de municípios
como Marília, Garça e Tupã, provoca o comprometimento
sanitário do Rio Tibiriçá. As águas da Bacia
do Peixe também acusam o lançamento de esgotos domésticos
sem tratamento, o que torna necessária a adoção de
medidas de saneamento básico.
No Pontal do Paranapanema, a CETESB recomenda melhor avaliação
do desempenho das estações de tratamento instaladas em frigoríficos
e curtumes, pois o Rio Santo Anastácio apresenta degradação
na qualidade das águas, que também sofrem com o lançamento
de esgotos domésticos.
Texto:
Eli Serenza
Fotos:
Zé Jorge
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